07/04/2026
Psicologia Evolutiva
Sobre as bases biológicas do inconsciente coletivo
Publicado pela Revista Jungiana em https://junguiana.sbpa.org.br/revista/article/view/313
Jung viveu em um período de expressivos avanços científicos na Biologia, incluindo as teorias da evolução e da seleção natural, a descoberta dos primeiros fósseis de hominídeos e o surgimento da antropologia científica. Sua pesquisa evoluiu em diálogo com as descobertas consideradas mais plausíveis pela ciência, resultando em uma constante reformulação e aprimoramento conceitual. Argumentamos que a forma madura de sua psicologia pode ser interpretada como uma tentativa de integrar as grandes descobertas científicas de seu tempo, ao mesmo tempo em que, antecipando-se à sua época, forneceu bases teóricas para achados que a neurociência contemporânea começa a confirmar.
Palavras-chave: seleção natural; inconsciente coletivo; psicologia evolutiva.
Introdução[1]
Apresentaremos um possível caminho conceitual da psicologia analítica no processo de desenvolvimento de sua ideia basal: o inconsciente coletivo, especificamente na possibilidade de sua fundamentação científico-biológica. Com base nos trabalhos de Shamdasani (2011), Clark (2025) e Alcaro et al. (2017), argumentaremos que a teoria dos arquétipos não foi desenvolvida por Jung como mero constructo teórico, mas sim como uma contrapartida psíquica de substratos fisiológicos, representando o ápice de uma série de teorias evolutivas (mais especificamente alemãs) às quais foi exposto em sua formação, tais como a anatomia comparativa dos Naturphilosophen[2] e a embriologia de Ernst Haeckel (1895/1905).
Jung viveu uma época de grandes avanços da Biologia que acabaram por influenciar sua obra – dentre eles as teorias da evolução e da seleção natural, a descoberta dos primeiros fósseis de hominídeos e o nascimento da antropologia científica. Desse modo, sua pesquisa foi gradualmente se desenvolvendo em consonância com as descobertas que a ciência apontava como mais prováveis, resultando numa dinâmica em que os conceitos são constantemente reconstruídos e aprimorados. Apresentaremos a tese de que a versão madura de sua psicologia pode ser compreendida como uma tentativa de conciliação das grandes descobertas científicas de seu tempo, ao mesmo tempo que, avançando à frente de sua época, foi capaz de fundamentar teoricamente descobertas que a atual neurociência está começando a apontar como verdadeiras.
Como afirma Shamdasani (2011), no início de sua trajetória Jung apresentava um certo alinhamento ao vitalismo, como constatado nas palestras da Zofingia[3], sendo este gradualmente abandonado em prol da teoria da herança de características adquiridas de Jean-Baptiste de Lamarck. Porém, ainda naquele final de século, Lamarck seria considerado superado, colocando por terra as primeiras bases biológicas que Jung buscou para fundamentar as conjecturas provenientes de suas observações clínicas a respeito de uma possível hereditariedade de características psicológicas.
Seu interesse por Kant aproximou-o do pensamento dos Naturphilosophen[4], um grupo de filósofos, médicos, biólogos e escritores (dentre eles Goethe e Schelling) do romantismo pós-iluminista, que empreenderam importantes pesquisas nos âmbitos da embriologia e anatomia comparativa. Tais pesquisas influenciaram uma geração de cientistas, notadamente Haeckel e Darwin, que iriam, cada um a seu modo, influenciar a forma como Jung compreendia a biologia humana, levando-o a conceber o inconsciente coletivo não mais como um conjunto de memórias materialmente herdadas, mas sim como um conjunto de heranças de condições de possibilidade da experiência e do desenvolvimento mental.
Nesse contexto, a teoria da seleção natural representou um ponto de virada, na medida que apresentou incontestáveis críticas às teorias da memória orgânica[5] que também eram fundamentos iniciais da teoria dos arquétipos. A partir de então, a influência romântica, o trabalho de Darwin e as teorias de Haeckel se tornam os fundamentos biológicos do modelo junguiano de desenvolvimento da psique em camadas[6]. Após décadas de reducionismo somático‑materialista, vivemos a redescoberta dos Naturphilosophen que, somada aos avanços da neurociência, propicia um reencontro com a obra de Jung e nos convida a avançar o corpo dinâmico de conhecimentos da psicologia analítica.
Teorias da herança de memórias: base inicial
O estado da arte sobre a memória ao qual Jung teve acesso compreendia desde a ideia platônica da reminiscência até os conceitos de memória orgânica de Ribot (1897) e Stanley Hall (1885), do final do século XIX e início do século XX. Estes últimos derivados de duas importantes teorias da biologia: a herança de características adquiridas de Jean-Baptiste de Lamarck (1809/1984) e a lei biogenética de Ernst Haeckel (1895/1905).
Enquanto jovem terapeuta, Jung observou em seus pacientes traços psicológicos comuns que lhe pareceram explicáveis pelo viés do conceito de memória orgânica, sendo um caso célebre encontrado em sua dissertação de 1902, onde relata a semelhança de uma passagem de Assim falava Zaratustra com um trecho de uma obra antiga de Justinus Kerner (Jung, 1999/1902, §141). Ao entrar em contato com a irmã de Nietzsche, ela lhe confirmou que este tivera contato com tal obra ainda em sua adolescência. Jung compreende o caso como "cópia involuntária", derivado de memórias, as quais não se tem acesso de forma direta, mas apenas através de processos mentais de criação.
Jung também observara que muitos temas e figuras da mitologia antiga apareciam com frequência nos sonhos e alucinações de pacientes. Enquanto a terapêutica corrente compreendia tais manifestações como sintomas reprimíveis, Jung propunha sua interpretabilidade. Em uma carta a Freud em 1909, expõe que sua pesquisa buscava um fundamento filogenético para as neuroses, que pudesse ser alicerçado em bases evolucionistas, ao mesmo tempo que consonante com suas observações clínicas, que apontavam para a existência de memórias que não poderiam ter sua origem nas vivências pessoais do indivíduo, usando como exemplo motivos mitológicos gerais que apareciam em sonhos de pacientes, ou que eram frequentemente representados em obras literárias:
Agora estou lendo os quatro volumes do velho Creuzer, onde existe uma grande massa de material [sobre tais memórias]. Todo meu deleite com a arqueologia (enterrado por anos) voltou à vida. "Ricos filões" se abrem para a base filogenética da teoria da neurose (Mcguire, 1974/1909, p. 258).
Tal busca pela base filogenética era uma aspiração de vários pesquisadores, sendo um caso bastante influente sobre Jung o de Theodor Flournoy a respeito da paciente Hélène Smith (Flournoy, 1994/1900), uma jovem supostamente médium que relatava, com grande quantidade de detalhes, várias histórias de almas da Terra transmigradas para o planeta Marte, almas estas que se manteriam em constante contato com ela. Suas descrições eram tão reais que ela chegou a criar o idioma marciano. Ao analisá-la, Flournoy percebeu semelhanças do idioma "marciano" com o francês, atribuindo tais criações a um processo de imaginação misturada com o que chamou de criptomnésia – memórias que demonstramos possuir, mas sem termos recordação de como as adquirimos.
Por este termo de criptomnésia, ou ressurgimento de memórias latentes, duas coisas singularmente diferentes são compreendidas. Para mim é apenas uma questão de memórias da vida presente dela; e não vejo nada de "paranormal" nisso (Flournoy, 1994/1900, p. 173).
Nesse contexto, a postulação da teoria do Inconsciente Coletivo de Jung se apresentou como uma ampliação do conceito de criptomnésia de Flournoy[7], ao defender que não eram "só recordações de impressões obtidas ao longo da vida de uma pessoa que reapareciam (...), mas também lembranças raciais" (Shamdasani, 2011, p. 237), que continham motivos provenientes do desenvolvimento acumulado e repetido de toda humanidade, claramente influenciado pelas teorias da memória orgânica e herança de características adquiridas. Assim fundamenta o que Freud chamou de "resíduos arcaicos" a partir de Lamarck, compreendendo a "história como algo que a raça acumula e armazena nos indivíduos" (Otis, 1994, apud Shamdasani, 2011, p. 202), transferida geracionalmente.
Porém as evidências apresentadas pela publicação de A Origem das Espécies invalidaram as citadas teorias de herança de memórias, que eram fundantes dessa concepção inicial de inconsciente coletivo. Ao mesmo tempo, as descobertas dos primeiros fósseis de Homo Erectus e de Neandertais no final do século XIX (Clark, 2025) – fósseis aos quais Jung teve acesso durante seus anos de formação da Universidade de Basel[8] – reforçariam ainda mais os argumentos de Darwin.
Teoria da seleção natural: de inimiga a aliada
A reação inicial de Jung à teoria da seleção natural foi de rejeição, devido principalmente ao menosprezo que tinha pelo materialismo científico hegemônico na virada do século (Jung, 1896/1983). Porém, tal impressão durou pouco tempo; na medida em que teve contato com as teorias de Haeckel e dos Naturphilosophen, sua posição acabou mudando radicalmente. Ao iniciar seus trabalhos no Burghölzli como assistente de Eugen Bleuler, seu discurso biológico já se encontrava mais alinhado ao formato que se apresentaria na maturidade de sua obra, quando buscou fundamentar a mente na biologia, mas sem reduzi-la ao âmbito fisiológico. Isso o leva a desenvolver a diferenciação entre as camadas históricas do indivíduo: a que adquirimos socialmente (a consciência coletiva, termo emprestado da sociologia francesa[9]) e a impessoal herdada:
A consciência individual resulta da natureza orgânica e psíquica, considerada isoladamente (...) a consciência coletiva era composta por representações coletivas que expressavam como o grupo pensava a seu próprio respeito. Essas representações assumiam em geral a forma de mitos, lendas e concepções religiosas. As representações coletivas não eram inatas, mas resultavam da ação do coletivo e da história (Shamdasani, 2011, p. 309-310).
Avançando até Símbolos da Transformação (2012/1952), versão revisada do original de 1912, coetâneo ao rompimento com Freud, Jung apresenta paralelos entre a adaptação biológica da raça humana e o pensamento mítico-simbólico. A lei biogenética[10] da embriologia de Haeckel é adotada como válida também na psicologia, e as características mais antigas da mente seriam a base afetiva dos motivos simbólicos espontâneos que ele observava emergir de seus pacientes: "também nossa mente, que aparentemente superou essas tendências arcaicas, ostenta, não obstante, a marca da evolução acumulada" (Jung, 2012/1952, §36). Aqui se observa o início do rompimento com as teorias da memória orgânica ao situar armazenamento das memórias impessoais no âmbito da experiência psicológica, e não mais no somático, reforçando sua posição contra a redutibilidade da psicologia à biologia:
Esta associação de ideias não nos resulta estranha; do contrário, a conhecemos bem por causa da anatomia comparada e pela genética, que nos mostram que a estrutura e funções do corpo humano surgem devido a uma série de transformações na história da espécie. Daí vem a razão por trás da suspeita de que na psicologia a ontogênese também corresponde à filogênese (Jung, 2012/1952, §26).
Já em 1916, na palestra "A estrutura do inconsciente" (Jung, 2013b/1928), publicada como apêndice IV do vol. 7 da O.C, Jung apresenta de forma mais clara sua divisão da mente em duas camadas: o inconsciente pessoal, que contém as memórias adquiridas ao longo da vida do indivíduo, e o inconsciente impessoal, que contém a contrapartida mental da evolução biológica do corpo. A primeira é proveniente das afecções sensíveis da vivência individual, mas a segunda é, de alguma forma, herdada, pois apresenta motivos claramente impessoais. Em visitas futuras ao texto da palestra, visando se distanciar da ideia de herança de características adquiridas, criaria complementos afirmando que tais características se formam "de um lado, pelas percepções inconscientes de processos externos reais e, por outro, por resíduos das funções filogenéticas de percepção e adaptação" (Jung, 2013b/1928, §507), colocando-se agora em maior consonância com a teoria da seleção natural:
(....) o inconsciente é composto, por um lado, pelas percepções inconscientes de processos externos reais e, por outro, por resíduos das funções filogenéticas de percepção e adaptação. Uma reconstrução da imagem inconsciente do mundo resultaria em uma imagem do mundo que está sendo contemplado desde sempre: a realidade externa. O que o inconsciente coletivo contém é um reflexo histórico do mundo. É, em certo modo também um mundo, só que um mundo de imagens (Jung, 2013b/1928, §507).
Neste ponto chegamos ao limite do que o próprio Jung desenvolveu no que diz respeito ao alinhamento de sua psicologia em consonância com a Biologia. Para tentar mostrar o que poderia ser sua posição madura sobre o tema, cabe citar Michael Fordham, que em 30 de maio de 1958 escreveu diretamente a Jung questionando a validade das bases biológicas de que ele falara em suas antigas conferências frente às teorias biológicas consolidadas, pois tanto a teoria dos genes de Mendel (1866) quanto a teoria do plasma germinativo de Weismann (1892) colocavam abaixo a possibilidade de herança de características adquiridas.
Em resposta, Jung reconheceu que suas bases teóricas eram mais filosóficas que biológicas, admitindo que havia deixado de lado a Biologia em geral, pois o que se sabia até então sobre a fisiologia da mente ainda era insuficiente para fundamentá-la em termos biológicos. Para a Psicologia era indiferente se os arquétipos eram "transmitidos pela tradição, migração ou herança" (Shamdasani, 2011, p. 285), pois se trata de um conceito empírico análogo aos instintos, sendo estes sim, provadamente herdados.
A consolidação da teoria da seleção natural e o abandono das ideias de memória orgânica por parte da Biologia fizeram com que Jung se distanciasse das tentativas de fundamentar os arquétipos em termos biológicos, passando deste modo a se referir a eles como análogos às categorias de Kant: não mais memórias herdadas, mas sim condições inatas de possibilidade para a formação de representações.
Não se deve imaginar que as fantasias mitológicas sejam representações herdadas. Não nos referimos a nada disso, mas sim a possibilidades de representação inatas, condições a priori do pensamento simbólico, comparáveis, por exemplo, às categorias kantianas (Jung, 2014/1928, §14).
Tal mudança em direção à filosofia transcendental[11], na medida em que busca refundamentar suas ideias sobre a origem das memórias impessoais, torna o próprio termo "memória" inconsistente, pois memórias passam a ser compreendidas como conteúdos, enquanto os arquétipos do inconsciente coletivo são pura forma – condições a priori da experiência mental – correspondendo à contrapartida psíquica dos instintos. Nesse sentido, podemos dizer que a psicologia complexa se apresenta como um consistente modelo de "psicologia evolucionista transcendental", na medida em que estuda e compreende as condições de possibilidade da experiência mental como contrapartidas psíquicas às experiências físicas, que resultam da transmissão de características biológicas selecionadas pela adaptação ao meio. O arquétipo, ou imagem primordial, é uma "expressão psíquica de uma disposição determinada anatômica e fisiologicamente" (Jung, apud Shamdasani, 2011, p. 252).
Tais disposições anatômico-fisiológicas determinam as possibilidades de experiência que se encontram disponíveis, e que, de uma perspectiva ontológica, nos afetam a partir de um substrato corpóreo e sua estrutura afetiva. Dessa forma, o inconsciente coletivo seria composto pelas condições a priori da própria experiência, ampliando o âmbito das categorias kantianas, que teria reduzido o amplo conjunto das condições de possibilidade das experiências mentais ao conjunto das categorias lógicas do pensamento racional. Tal equiparação de estatuto ontológico das imagens primordiais com as categorias transcendentais serviu para demonstrar seu entendimento de que conteúdos mentais não podem ser herdados, mas condições de possibilidade de experienciar conteúdos podem:
Os conteúdos concretos certamente se ausentam, mas suas potencialidades estão dadas a priori pela disposição funcional herdada e pré-formada. A psique nada mais é que o resultado da evolução funcional do cérebro ao longo da linha genealógica, o resultado dos ensaios adaptativos e experiências da série filogenética (Jung, 2013a/1921, §512).
Avançando para a neurociência das últimas décadas, fica claro que algumas das intuições fundamentais de Jung (incluso o inconsciente coletivo) podem estar realmente consonantes com o funcionamento dos processos biológicos do nosso cérebro (Alcaro et al., 2017). Jung não poderia prever que os avanços da genética iriam mostrar que a embriologia de Haeckel[12] e a anatomia comparativa dos Naturphilosophen estavam muito mais corretas do que se poderia imaginar em suas épocas[13], tornando necessário revisitar sua obra, e de certa forma repensar o modo como compreendemos os fundamentos evolutivos implícitos nela.
A psicologia analítica frente à biologia contemporânea
Para além do próprio Jung, também os continuadores de sua obra não deram a devida importância à dimensão biológico-evolutiva de suas ideias, em geral excluindo-a dos seus desdobramentos. De acordo com Clark (2025)[14], um dos principais motivos se deve à falsa suposição de que todas as teorias biológicas nas quais Jung se apoiou estavam incorretas, tais como as ideias de Haeckel e dos Naturphilosophen (Clark, 2025). A atual neurociência não apenas revalidou a anatomia comparativa e a embriologia do desenvolvimento, assim como muitas das concepções basais da psicologia analítica, como a natureza afetiva do inconsciente, o processo filogenético de desenvolvimento do ego consciente a partir de um estado inconsciente anterior (Clark, 2025), assim como a heterocronia servindo de base para tal processo. Também é notável o esforço de Jung em conceber um modelo científico que supere o reducionismo da ciência iluminista, apresentando-se como precursor de um modo de fazer ciência que pode ser resumido na afirmação: "os sentimentos são tão cognitivos como qualquer outra imagem perceptual e tão dependentes do córtex cerebral como qualquer outra imagem" (Damasio, 2012, p. 177).
Tal modelo se posiciona contra a separação cartesiana entre mente e corpo, compreendendo a vida mental como contrapartida de percepções provenientes do substrato biológico, levando em conta elementos herdados (arquétipos e instintos) e elementos adquiridos (consciência coletiva e complexos), tornando cada indivíduo uma dinâmica única, criticando a pretensa visão científica de "terceira pessoa", que exclui individualidades em nome das generalidades. Tal pioneirismo resultou inevitavelmente em conjecturas que apontam para descrições típicas, imparciais e flexíveis ao ponto de serem analisadas através do pensamento complexo, observadas em sua ação dinâmica, fornecendo possibilidades tipicamente abertas para compreender fenômenos psicológicos de uma forma mais abrangente do que apenas a biologia isoladamente é capaz.
Cabe salientar que a crítica de Jung à perspectiva científica de "terceira pessoa" não se dirige à cientificidade enquanto tal, mas ao pressuposto epistemológico de que os fenômenos psíquicos podem ser compreendidos a partir de enquadramentos objetivantes abstraídos do indivíduo. Tal perspectiva tende a substituir a singularidade concreta da vida psíquica por generalidades tipológicas, perdendo de vista a manifestação primária do psíquico como fenômeno para um eu experiencial (primeira pessoa)[15].
De acordo com Alcaro et al. (2017), podemos apontar pelo menos três ideias fundamentais de Jung que se encontram em situação de revalidação a partir das descobertas da neurociência: o funcionamento dos complexos, o caráter afetivo do Self e a sua função centralizadora e organizadora dos processos mentais. Também destacam uma citação em que Jung (1976/1958, §582) apresenta sua conjectura sobre a possível localização do substrato biológico da estrutura do arquétipo do Self, apontando para a base do cérebro, conjunto do que hoje chamamos de estruturas subcorticais (Alcaro et al., 2017). Sua localização anatomicamente central e seu caráter profundamente afetivo (próximo da medula espinhal) colocariam tais sistemas anatomicamente próximos aos mecanismos de controle de nossas funções fisiológicas mais básicas.
Walters (1994) indica possíveis correspondências entre algumas descobertas da neurociência e a teoria dos arquétipos. Em busca de uma estrutura testável para as possíveis funções adaptativas da mente, tenta fazer uma analogia entre os principais arquétipos e algumas teorias neurológicas fortemente testadas, afirmando que as ideias biológicas de Jung possuíam uma tendência prevalentemente lamarckiana (teoria rejeitada pelas posições de Alcaro et al., 2017), expressa de forma metafórica e incompleta, na medida em que não se preocupa em descrever problemas adaptativos do ambiente ancestral que levariam a adaptações específicas. Por fim, argumenta que a teoria dos arquétipos antecipou certas perspectivas evolucionistas, na medida em que buscou "definir adaptações psicológicas universais que evoluíram pela seleção natural e determinar como essas adaptações funcionam no ambiente contemporâneo" (Walters, 1994, p. 288).
Contemporaneamente[16] podemos relacionar a discussão ao paradigma neurocognitivo hegemônico, que atribui o processo de categorização afetiva da psique e do que chamaríamos de Self unicamente às estruturas corticais superiores[17], promovendo a "crença de que a consciência só emerge de dentro das redes tálamo-corticais" (Alcaro et al., 2017, p. 2). Porém as observações[18] contrariam tal paradigma, apontando para um funcionamento estrutural mais próximo do que George Northoff chamou de "self mínimo fenomenal" (Northoff et al., 2006, p. 2), uma espécie de proto-self anoético, de caráter afetivo e estruturante dos processos de cognição superiores. Observações em animais decorticados e humanos hidrocéfalos indicam que o substrato biológico para ocorrência deste nível mais elementar de consciência está anatomicamente localizado justamente na região das estruturas subcorticais onde Jung apontou a possível origem biológica do Self.
Tal conjunto de estruturas consiste, fisicamente, em sistemas que conectam os hemisférios cerebrais superiores à medula espinhal e ao corpo, alcançando sua maturidade funcional logo após o nascimento (em contraste com as estruturas superiores, que se desenvolvem ao longo das primeiras décadas de vida), e servindo como uma espécie de interface comunicativa de estímulos entre a trama biológica do corpo e as áreas relacionadas às atividades cognitivas superiores do cérebro. MacLean (1973) chamou este conjunto de "cérebro reptiliano", que, para além da imprecisão terminológica, é observável em todos os animais que evoluíram a partir dos répteis, consistindo numa central de processos primários relacionados ao controle dos sistemas orgânicos.
Evidências em diferentes espécies mostram que tais sistemas são herdados biologicamente, encontrando-se intrinsicamente ligados aos instintos e aos reflexos físicos. Dado que, na maturidade de sua obra, Jung compreendia os arquétipos como contrapartidas psíquicas aos instintos, aqui sua posição se alinha à biologia contemporânea e à posição de Damasio (2012), que indica a possível centralidade dos mecanismos subcorticais nos processos primários de representação de estados somáticos e viscerais[19] e na formação da protoconsciência.
Tais evidências também corroboram as ideias da evolução adaptativa de arquétipos dos Naturphilosophen e sua concepção de que o ego consciente e os hemisférios superiores do cérebro derivam de um processo evolutivo muito mais recente do que a rede límbica subcortical[20]. A paleoantropologia possui posições similares, pois ao calcular o desenvolvimento ontogenético de fósseis hominídeos a partir do tamanho de seus crânios, se evidencia que a estrutura superior do cérebro provavelmente se desenvolveu em períodos evolutivos recentes[21]. Nos termos da psicologia analítica, o inconsciente coletivo (cuja base afetiva emanaria a partir das regiões subcorticais) é mais antigo que o ego consciente que evolutivamente se desenvolveu a partir dele.
Isso significa que a característica psíquica de um instinto é uma qualidade emergente de um impulso/padrão compulsivo/automático originalmente não psíquico (como o de um inseto) que poderia ativar o organismo (Alcaro et al., 2007, nota 7, p. 5).
A teoria de uma protoconsciência pré-representativa que possui a afetividade como característica fundamental já era conhecida na época de Jung, sendo o próprio Eugen Bleuler um de seus principais proponentes. Ao unir as concepções de Bleuler ao trabalho de Pierre Janet sobre as ideias fixas autônomas (Janet, 1889), Jung chegou a sua própria concepção de modelo afetivo da mente, que junto à embriologia de Haeckel[22] e a ideia de arquétipos comuns (Urbilde) dos Naturphilosophen, formaram a base de seu modelo evolutivo.
Desta perspectiva, os afetos são compreendidos como formas de experiência que se originam num campo primário pré-consciente, consistindo em elos de ligação entre as camadas impessoal e a pessoal da nossa mente, modulando a relevância dos temas e imagens que formarão os estados de humor e o comportamento do indivíduo, ao mesmo tempo que gerenciam uma série de respostas fisiológicas coordenadas que constituem o repertório característico de uma emoção.
Tal como aponta Freeman (1999), a modulação de pesos afetivos que ocorre na base dos processos mentais funciona como um padrão neurodinâmico emergente das estruturas subcorticais, que se propaga em direção ao cérebro e ao corpo, gerando centros afetivos interligados aos instintos por um lado, e aos processos mentais superiores por outro. Assim como em outros experimentos neurocientíficos recentes (Brown, 2015; Freeman, 1999), encontramos indicativos de que a afetividade é realmente a forma mais primordial de experiência subjetiva, podendo servir como processo primário a partir do qual a subjetividade superior se estrutura.
Assim os afetos, enquanto direcionados às estruturas viscerais corpóreas (através da medula espinhal), atuam como vetores de controle de intensidade das ações e reações físico-motoras, em estreita ligação com os instintos e comportamentos, e ao se direcionar para áreas cerebrais relacionadas a atividades subjetivas superiores, assumem a forma de imagens e representações mentais, que dependendo da carga afetiva de seu tema, podem se manifestar ou não de forma arquetípica, modulando através desta dinâmica a própria realidade psíquica.
Considerações Finais
Ao enfrentar o desafio imposto pela rápida evolução das teorias biológicas do final do século XIX, Jung viu-se diante da necessidade de reavaliar e reformular as bases de sua concepção de inconsciente coletivo, pois elas dependiam de uma série de teorias de hereditariedade psíquica. O distanciamento das ideias de memória orgânica e herança de características adquiridas tornou-se inevitável diante do avanço da biologia, e a consolidação da teoria da seleção natural forçou o abandono das antigas bases, fazendo com que os arquétipos deixassem de ser compreendidos como memórias herdadas para serem entendidos como condições herdadas para a possibilidade de formação de ideias.
Ao adotar a terminologia kantiana, Jung estabeleceu uma analogia entre sua concepção sobre os arquétipos e as categorias, afirmando que os arquétipos não consistiam em ideias herdadas, mas sim possibilidades inatas para representações. A mudança de paradigma foi necessária para dissociar os arquétipos da ideia de herança biológica direta, mantendo seus fundamentos psíquicos inatos, mas modulados pela estrutura biológica em seus diversos níveis. Assim, os arquétipos têm sua compreensão atualizada para expressões psíquicas de disposições anatômico-fisiológicas, moldadas pelas características físicas e favorecidas pela seleção natural.
Tal abordagem biológico-transcendental permitiu a Jung reconciliar suas observações clínicas com os avanços da biologia, especialmente com a teoria da seleção natural. Apesar de seu afastamento das tentativas biológicas de embasamento, a neurociência das últimas décadas mostrou que muitas de suas conjecturas podem se sustentar na biologia, e que suas intuições sobre a natureza afetiva da psique, a origem evolutiva dos arquétipos e o caráter centralizador e organizador do Self podem realmente corresponder a conjecturas corretas sobre o funcionamento da nossa realidade mental.
Referências
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Autores
Anderson de Campos Triacca – Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, RS, Brasil. ORCID: 0009-0000-6891-0383.
Marlon Xavier – Valencia International University, Valencia, Espanha; Instituto Dédalus, Fortaleza, CE, Brasil. ORCID: 0000-0003-1003-5058.
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